A Counterpoint Research reportou nesta segunda-feira (13/07) que as remessas globais de smartphones registraram uma queda de 11% no segundo trimestre de 2026. O resultado marca o nível de vendas mais baixo para o setor desde 2013, evidenciando uma crise profunda na cadeia de suprimentos de componentes básicos. O principal fator para esse retrocesso é a escassez aguda de chips de memória, provocada pelo deslocamento da produção global para atender ao setor de inteligência artificial.

A ascensão da IA e o sacrifício dos smartphones

A crise atual, apelidada por analistas de mercado como o gargalo das memórias, decorre do investimento massivo em infraestrutura para grandes modelos de linguagem. Fornecedores de semicondutores estão priorizando a fabricação de memórias de banda larga (HBM), componentes essenciais para os servidores de IA operados por empresas como Google e Microsoft. Esse movimento reduziu drasticamente a capacidade produtiva de chips DRAM e NAND, utilizados respectivamente para a memória RAM e o armazenamento interno de celulares e computadores.

Com a oferta reduzida, os preços dos componentes dispararam no mercado internacional. Dados de consultorias indicam que, em alguns modelos intermediários, o custo dos chips de memória já representa 60% do valor total de fabricação do aparelho. Para manter a rentabilidade, as marcas foram forçadas a repassar esses custos ao consumidor final ou reduzir as especificações técnicas de novos lançamentos, o que gerou uma retração imediata na demanda global.

Desempenho das gigantes e queda das marcas chinesas

Apesar do cenário de retração generalizada, a Samsung e a Apple conseguiram resultados que as distanciam da crise enfrentada pelas concorrentes. A Samsung retomou a liderança global com 24% de participação de mercado, impulsionada pelo sucesso de vendas da linha Galaxy S26 Ultra. A empresa sul-coreana se beneficiou de sua estrutura de fabricação verticalizada, que permitiu um controle mais rígido sobre o estoque de componentes em mercados estratégicos, como a Índia e o Oriente Médio.

A Apple também registrou desempenho positivo ao crescer 3% nas remessas no período, alcançando uma fatia recorde de 20% do setor. A resiliência da linha iPhone 17 é atribuída ao público fiel do segmento premium, que possui maior poder aquisitivo e é menos afetado pela inflação dos eletrônicos. No entanto, o cenário é oposto para as fabricantes chinesas:

  • Xiaomi: Sofreu uma das maiores quedas do trimestre, perdendo espaço no segmento de entrada.
  • Oppo e Vivo: Registraram reduções significativas nas remessas devido à alta exposição a aparelhos intermediários.
  • Fabricantes menores: Enfrentam cancelamentos de linhas inteiras de produtos que se tornaram inviáveis comercialmente.

Custos logísticos e o futuro da indústria

Além da falta de componentes eletrônicos, as tensões geopolíticas no Oriente Médio adicionaram uma camada extra de dificuldade ao setor. O aumento nos custos de transporte e combustível inflacionou ainda mais o preço final dos dispositivos. Relatórios da IDC e Omdia sugerem que a economia dos smartphones está sendo remodelada, forçando empresas a estenderem o ciclo de vida de modelos antigos e a abandonarem a estratégia de lançamentos anuais agressivos em todas as categorias.

A perspectiva para os próximos meses permanece desafiadora para o consumidor brasileiro e global. Analistas preveem que a escassez de memória deve persistir pelo menos até 2027, uma vez que a construção de novas fábricas de semicondutores demanda anos de investimento. Para quem pretende trocar de celular, a tendência indica que os modelos básicos podem retornar a configurações de hardware de anos anteriores, como 4 GB de RAM, para manter os preços competitivos.

O impacto dessa crise sinaliza uma mudança estrutural na tecnologia de consumo. Enquanto a inteligência artificial avança em servidores e nuvem, os dispositivos físicos nas mãos dos usuários enfrentam o encarecimento e a estagnação técnica. A médio prazo, o mercado deve se consolidar ainda mais em torno de poucas marcas capazes de negociar volumes massivos de suprimentos e absorver variações cambiais e logísticas severas.