O Ofcom anunciou nesta terça-feira (21/04) a abertura de uma investigação formal contra o Telegram para apurar se a plataforma está cumprindo suas obrigações legais de proteger usuários contra o compartilhamento de material de abuso sexual infantil (CSAM). A ação do órgão regulador do Reino Unido ocorre após o recebimento de evidências enviadas pelo Centro Canadense de Proteção à Criança, que indicam que o aplicativo de mensagens está sendo utilizado de forma negligente para a disseminação de conteúdo ilegal e exploração de menores.

Detalhes da investigação e evidências

A investigação se concentra na conformidade do Telegram com a Lei de Segurança Online (Online Safety Act), que exige que serviços de mensagens e redes sociais identifiquem, mitiguem e removam rapidamente conteúdos criminosos. Além do Telegram, o Ofcom incluiu os sites Teen Chat e Chat Avenue no escopo das averiguações, com foco específico no risco de aliciamento de crianças por predadores (grooming). No caso do Chat Avenue, o regulador também avalia se a plataforma toma medidas suficientes para impedir que menores encontrem pornografia e outros conteúdos prejudiciais.

Segundo Suzanne Cater, diretora de fiscalização do Ofcom, as empresas de tecnologia devem intensificar o monitoramento ou enfrentarão sanções severas. A investigação do Telegram marca a primeira grande ação de execução contra um serviço de mensagens de escala global sob a nova legislação britânica. O processo envolve a coleta de dados técnicos, análise de relatórios de moderação e auditorias nos algoritmos de detecção da plataforma. Se as falhas forem comprovadas, o Telegram poderá ser multado em até 10% de seu faturamento global anual.

Contexto da Lei de Segurança Online

Desde que a Lei de Segurança Online entrou em vigor plenamente em 2025, o Ofcom iniciou quase 100 investigações contra diferentes serviços digitais. O órgão já aplicou 11 multas e, em março de 2026, enviou notificações formais para gigantes como TikTok, YouTube e Snapchat, exigindo provas de melhorias na segurança infantil. O movimento atual indica uma mudança de estratégia: enquanto os primeiros meses da lei focaram em sites de pornografia e fóruns de nicho, o regulador agora direciona sua autoridade para aplicativos de comunicação em massa.

O impacto desta decisão para o leitor de tecnologia é direto. O Telegram, conhecido por sua política de moderação permissiva e criptografia, enfrenta uma pressão regulatória que pode forçar mudanças técnicas profundas na forma como os grupos públicos e canais são monitorados. A investigação também espelha processos semelhantes ocorridos com a plataforma X em janeiro de 2026, quando o chatbot Grok foi acusado de facilitar a criação de imagens sintéticas de abuso infantil por meio de IA.

Para empresas que operam no setor de tecnologia, o rigor do Ofcom estabelece um padrão de conformidade que deve ser seguido para evitar o bloqueio de serviços em território britânico. O uso de tecnologias de correspondência de hashes (hash-matching), que permitem identificar imagens conhecidas sem violar a privacidade de conversas privadas de forma indiscriminada, tornou-se uma exigência técnica implícita para a operação regular de serviços de compartilhamento de arquivos e mensagens no Reino Unido.

A conclusão deste inquérito deve levar alguns meses, período em que o Telegram terá a oportunidade de apresentar sua defesa e demonstrar as ferramentas de proteção implementadas. No entanto, o histórico de resistência da plataforma a solicitações governamentais coloca o serviço em uma posição delicada perante as novas normas de segurança digital europeias e britânicas, sinalizando que a era da moderação passiva está chegando ao fim para as grandes empresas de tecnologia.