A NASA e a Agência Espacial Europeia (ESA) confirmaram nesta terça-feira (16/06) a identificação do primeiro fragmento fóssil do bojo galáctico, utilizando observações do Telescópio Espacial James Webb em conjunto com dados de arquivo do telescópio Hubble. A descoberta em torno do sistema estelar Terzan 5 altera a compreensão científica sobre a formação da Via Láctea e estabelece uma nova classe de objetos astronômicos.

A reclassificação de Terzan 5

Anteriormente classificado como um aglomerado estelar globular comum, o Terzan 5 foi alvo de uma análise profunda que revelou uma complexidade inesperada. Enquanto aglomerados globulares tradicionais possuem apenas uma geração de estrelas antigas, o Webb detectou quatro populações estelares distintas dentro do sistema. Este fato comprova que o objeto não é um simples agrupamento, mas um sobrevivente primordial dos blocos de construção que formaram o centro da nossa galáxia.

Os dados coletados indicam que as populações estelares de Terzan 5 se formaram em períodos muito distantes entre si. As idades registradas pelos pesquisadores são as seguintes:

  • 12,5 bilhões de anos (população mais antiga)
  • 4,7 bilhões de anos
  • 3,8 bilhões de anos
  • 2,5 bilhões de anos (população mais recente)

Localizado a cerca de 22 mil anos-luz de distância, na constelação de Sagitário, o sistema concentra uma massa equivalente a 2 milhões de vezes a do Sol em um espaço de apenas algumas dezenas de anos-luz. Esta densidade extrema, somada à presença de poeira interestelar no centro da galáxia, dificultava estudos anteriores, desafio superado pela visão infravermelha do instrumento NIRCam do James Webb.

O impacto na história da Via Láctea

A existência de múltiplas gerações de estrelas em um único sistema isolado sugere que Terzan 5 possui a capacidade de reter gás e formar novas estrelas de maneira autônoma ao longo de bilhões de anos. Segundo Francesco R. Ferraro, pesquisador principal da Universidade de Bolonha, este objeto assemelha-se aos aglomerados primordiais que migraram para o centro das galáxias no início do universo para formar o bojo central.

A teoria reforçada por esta observação indica que as galáxias primitivas possuíam grandes discos de gás que se fragmentaram em massas densas. Muitas dessas massas se fundiram para criar o núcleo galáctico, mas Terzan 5 permaneceu como um sobrevivente isolado desse processo destrutivo. Para os astrônomos, o sistema funciona como uma cápsula do tempo que preserva as condições químicas e físicas de diferentes eras da evolução cósmica.

O estudo foi apresentado durante o 248º encontro da Sociedade Astronômica Americana e publicado na revista Astronomy & Astrophysics. A análise combinou 12 anos de dados históricos do Hubble com as novas capacidades de alta resolução do Webb, permitindo distinguir as estrelas individuais no núcleo extremamente povoado do sistema com precisão inédita.

Perspectivas para a astronomia galáctica

Para a comunidade científica, a confirmação desta nova categoria de objetos abre caminho para a busca de outros fragmentos fósseis em regiões densas da galáxia. A descoberta demonstra que o bojo da Via Láctea não é uma estrutura homogênea, mas o resultado de uma montagem complexa de sistemas estelares que ainda guardam segredos sobre as primeiras fases de vida do universo.

A capacidade do Webb em atravessar nuvens de poeira e gás permite agora que pesquisadores mapeiem com detalhes a composição química destas estrelas, identificando as abundâncias de ferro que variam entre cada uma das quatro gerações encontradas em Terzan 5. Este nível de detalhamento técnico é fundamental para reconstruir o cronograma exato de como a Via Láctea se tornou a galáxia espiral que observamos atualmente.